Mensagem do Arcebispo › 16/06/2019

Dons diversos, um só Espírito

A celebração da Solenidade de Pentecostes nos deu a oportunidade de refletir sobre o Espírito Santo e de renovar nossa fé na sua presença e ação na vida da Igreja. Instituída por Jesus Cristo, a Igreja é a “esposa do Espírito Santo”, sua “criatura” e sua obra permanente no mundo.

Não é sem razão que se afirma ser o Espírito Santo “a alma da Igreja”; sem alma, o corpo seria inanimado e morto; sem o Espírito Santo, a Igreja seria uma estrutura vazia e ineficaz. O Papa Francisco afirmou diversas vezes que, “sem a presença e a ação do Espírito Santo, a Igreja seria apenas uma ONG humana”. Provavelmente, ela já teria desaparecido para ser apenas uma lembrança histórica, como aconteceu com tantas outras organizações humanas. Mas se está viva, atuante e cheia de esperança, porém, é porque ela não depende apenas dos homens, mas conta com a força dinâmica do Espírito Santo.

E o Espírito Santo age de muitas formas e em todos os membros da Igreja. Seria um erro afirmar que apenas os membros do clero são animados pelo Espírito Santo. São Paulo afirma, de maneira radical, que nem se poderia ter verdadeira fé sem a ação do Espírito de Deus: “Ninguém pode dizer – ‘Jesus é o Senhor’ – a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). A fé é o primeiro e mais importante fruto da ação do Espírito Santo nas pessoas. Ele nos capacita a fazer o ato de fé e, por isso, quem não tem fé, peça-a ao Espírito Santo. E quem a possui, peça para ser forte e perseverante, rico nas obras da fé. Da mesma forma, é o mesmo Espírito Santo que nos capacita a ter a esperança sobrenatural e a caridade cristã. As virtudes teologais são graças e capacidades infundidas em nós, no Batismo, pelo Espírito Santo. E são dadas a todos.

No entanto, o apóstolo afirma ainda que, na Igreja, há dons, carismas, ministérios, atividades diversas; todas procedem do mesmo Espírito, que capacita os membros da Igreja a prestar seu serviço ao Evangelho na Igreja. “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7). Na Igreja, acontece como num corpo: muitos membros e órgãos, com funções diversas, mas todos agem em vista da vitalidade, da saúde e do bem do corpo (cf. v.12). Nenhum membro, a não ser que esteja enfermo, age de maneira descontrolada, mas em harmonia com o corpo todo.

A analogia do corpo humano e dos seus membros, para falar da multiforme ação do Espírito Santo na Igreja, serve para falar da valorização de todas as formas de colaboração e participação dos membros da Igreja na sua vida e missão. Não precisam fazer todos a mesma coisa, nem devem. Não deve haver rivalidade nem inveja entre os membros da Igreja por causa da diversidade de dons recebidos, mas, sim, o desejo sincero e o esforço de cada um para colocar seu próprio dom a serviço da Igreja e de sua missão nas comunidades concretas, nas quais cada um tem parte no corpo eclesial.

Menos ainda deveria haver uma espécie de contraposição de membros na Igreja por causa dos dons diversos que o Espírito de Deus concede aos discípulos de Cristo. A contraposição entre clero e leigos é péssima, revela uma compreensão equivocada da Igreja e faz muito mal a esta e ao desempenho de sua missão. A Igreja não é uma federação corporativa de classes em concorrência entre si ou em luta por poder e honras. Ela é a comunhão dos discípulos missionários de Jesus Cristo, que são suas testemunhas no mundo. O seu princípio constitutivo não é o pacto social nem a luta de classes ou o domínio de uma categoria eclesial sobre outra. O princípio constitutivo da Igreja é o da comunhão, no dom do Espírito Santo. As divisões e lutas internas na Igreja a dilaceram e enfraquecem a eficácia de sua missão.

Na celebração do nosso sínodo arquidiocesano, é necessário interrogar-se sobre a verdadeira natureza da Igreja e de sua missão na cidade de São Paulo. Todos os seus membros receberam a graça multiforme do Espírito Santo e são discípulos de Cristo, para testemunhar o Evangelho no mundo. E todos participam da missão da Igreja, com a qual devem colaborar com seu próprio dom. Todos os dons são necessários, embora não desempenhem a mesma função.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 12/06/2019

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